Biblioteca escolar e aprendizagem dos alunos

Biblioteca escolar e aprendizagem dos alunos

O acesso a uma biblioteca, por meio de atividades pedagógicas estruturadas, contribui significativamente para a aprendizagem dos alunos. Nos ciclos da Educação Infantil, estudos indicam que o acesso aos livros e brinquedos em um espaço organizado e supervisionado faz com que mais de 80% das crianças atinjam o nível máximo de aprendizado (ver aqui – http://goo.gl/GAj5b6).

No depoimento a seguir, uma professora de biblioteca em escola municipal no Recife (PE) narra a experiência pedagógica bem-sucedida que desenvolveu com alunos do Ensino Fundamental:

“Todo início de ano, nos dias de planejamento, a coordenadora sugere e discute com as professoras temas que poderão ser abordados a cada mês, então procuro fazer o planejamento dos encontros na biblioteca com as crianças de acordo com a programação da escola.

Em março de 2009, mês de aniversário do Recife, procurei no acervo algum livro que levasse a uma conversa sobre a cidade. Escolhi o livro O mar e suas lendas, escrito por crianças de Brasília Teimosa (região praieira do Recife), em que elas contam histórias que explicam, por exemplo, por que o mar é salgado ou como surgiu o nome da praia do Buraco da Veia. Minha intenção era que, após a leitura, as crianças também contassem histórias que rondam o lugar onde elas vivem.

Organizei as cadeiras de forma circular para facilitar a visualização e para que todos ficassem de frente uns para os outros. Fiz a mesma atividade, embora trabalhando com dois grupos de crianças, um grupo do 3° ano do 1° ciclo, crianças com idade entre 8 e 9 anos e outro grupo do 1° ano do 2° ciclo, idade entre 10 e 12 anos. Apresentei o livro para as crianças explicando que tinha sido feito por crianças que moram perto da praia, assim como elas. Selecionei duas histórias: “Deus colocou sal no mar” e “A Lenda do Buraco da Veia”. Comecei perguntando se elas sabiam por que o mar era salgado. Deixei que levantassem suas hipóteses e li como as crianças autoras do livro explicavam isso. Depois falei da praia que tinha lá em Brasília Teimosa que se chama Buraco da Veia, algumas crianças conheciam, e li a história que explica o porquê daquele nome.

Elas ficaram interessadas em ouvir as outras histórias do livro. Feita a leitura foi fácil vê-las motivadas a contar suas próprias histórias.

Surgiram histórias sobre uma mulher macaco que de noite fica em cima de uma árvore assombrando quem passa pela rua; sobre um cachorro que morreu atropelado, e quem passa perto do lugar onde isto aconteceu pode ouvir um som estranho saindo de dentro de um bueiro; de uma velha que fica no corredor do prédio assustando as meninas que fazem barulho; de uma assombração que aparece debaixo de uma jaqueira e outras mais comuns como da comadre Florzinha, do lobisomem e da loira do banheiro.

Conforme ouvia as histórias, observei como as crianças gostavam de ouvir os colegas e disputavam a vez de falar também, tudo isso provocado pela leitura de um livro escrito por crianças que elas nem conheciam. É admirável perceber como as crianças aprendem com outras crianças! Parecia que agora nós entrávamos no mundo delas, em suas fantasias mescladas de uma realidade vivida, sentida na pele e construída por parentes e vizinhos que agora eram trazidos para dentro de um espaço que até então era permeado de histórias de um mundo desconhecido, que têm origem em outros locais, como os contos de fadas, por exemplo, e outras leituras partilhadas na biblioteca. Da posição de ouvintes, elas passaram a ocupar o lugar de quem conta histórias, tecem narrativas, constrói um mundo ficcional. Enfim, criou-se um ambiente de aproximação, mediado pelas histórias lembradas, ouvidas, contadas, inventadas…”

Fonte: ROSA, Ester C. de S. Ler e escrever no cotidiano escolar: há espaço para a biblioteca?. In: FERREIRA, Andréa T. B e ROSA, Ester C. de S. O fazer cotidiano na sala de aula. Belo Horizonte: Ed. Autêntica, 2012, p. 76-77.