Como inovar no ensino de Matemática

Como inovar no ensino de Matemática

O consultor pedagógico Luca Rischbieter alerta: “Matemática não é aplicação mecânica de fórmulas, é busca de sentido, de padrões”.

“A matemática é algo maravilhoso, mas costuma ser ensinada de um jeito que faz a maioria das pessoas não gostar do assunto”, alertou Luca Rischbieter, consultor pedagógico da Positivo Informática Tecnologia Educacional, em palestra realizada dia 19 de maio, na Bett Brasil Educar 2016. A conferência, com o tema “Da Matemática sem sentido ao sentido da Matemática”, reuniu professores, educadores e representantes de escolas.

Luca propôs transformar o ensino da disciplina por novos caminhos, que a valorizem e a tornem fascinante, em vez de temida. Confira os destaques das reflexões feitas pelo especialista e suas dicas a todos que gostariam de inovar no processo de aprendizagem.

Como surgiu a sua preocupação com o modo de ensinar e aprender matemática?

Surgiu no contexto de uma crítica geral ao ensino baseado em decorar e em repetir. Fui professor, não de matemática, mas de geografia, e minhas primeiras reflexões e experiências em “engenharia didática” foram nessa área. Pra deixar a explicação mais “chique”, meu foco mudou a partir de meu mestrado na França, no começo dos anos 1990. Eu fui para lá pensando em estudar didática da geografia, mas o encontro com uma disciplina ministrada por Gérad Vergnaud, um grande psicólogo da aprendizagem, aluno brilhante de [Jean] Piaget, me levou para a didática da matemática, da qual ele é um dos fundadores.

Em sua opinião, quais são as atitudes praticadas atualmente e de forma geral pelos educadores em sala de aula que, em vez de despertar o interesse dos alunos e agregar conhecimento, acabam prejudicando o processo de aprendizagem?

O que prejudica são as velhas atitudes de sempre: confundir ensinar matemática com ensinar algoritmos de forma mecânica, com despejar exercícios, com não problematizar os conceitos. Se olharmos os cadernos de nossas crianças, é incrível constatar que elas vivem praticamente o mesmo pesadelo que nós vivemos há décadas, o de um ensino sem sentido. Isso é o grande inimigo da verdadeira democratização do conhecimento.

Quais as suas dicas para o educador que pretende inovar na forma de preparar e conduzir as suas aulas?

A principal seria: use a cabeça, porque basta pensar um pouco para libertar-se da terrível armadilha que é a concepção tradicional de ensinar. A disposição para pensar leva rapidamente professores a mudar a forma de trabalhar na sala de aula. Dicas mais práticas incluem sugestões como: construa suas aulas em torno de desafios e de problemas instigantes; não dê repostas prontas, mas estimule o debate e a busca da certeza; aceite, valorize e discuta os erros, estimule o compartilhamento de erros, eles são excelentes portas de acesso para pensar; saiba que toda criança, jovem ou adulto pode aprender com significado, se o ensino for adaptado e desafiador; matemática não é aplicação mecânica de fórmulas, é busca de sentido, de padrões, pense em abir mão de provas com notas etc.

Como a tecnologia pode auxiliar nesse processo de inovação?

De inúmeras maneiras. O uso de aplicativos e de softwares tem seu papel para desenvolver o domínio da linguagem matemática e programas mais sofisticados, como simuladores, podem enriquecer muito a gama de problemas criados e propostos. Toda a atividade de pesquisa é enriquecida exponencialmente se recorremos à web para buscar informações. O que me parece mais importante é que as novas tecnologias, cada vez mais acessíveis e portáteis, permitem dar um papel muito mais ativo a nossos aprendizes e, no fundo, essa é uma das principais mudanças de que precisamos.

Que resultados podem ser esperados com esse novo modo de ver o processo educacional?

Não podemos dizer que esse modo de ver o ensino seja novo porque vamos encontrar ideias semelhantes em todos os autores que, ao longo de décadas e décadas, discutem a questão de como ensinar melhor para mais pessoas. Acreditamos que, hoje, a percepção dos problemas dos modos mais tradicionais de ensinar, aliada a um desejo maior de mudança e às possibilidades que surgem com as novas tecnologias, permitam que, finalmente, aprender seja uma experiência instigante, acessível e transformadora para um número cada vez maior de estudantes. Isso é o que devemos esperar de um ensino renovado.

Poderia deixar uma mensagem para o professor que pretende desmistificar a disciplina e apresentá-la valorizando toda a sua beleza aos alunos?

Acho que seria algo como: ensinar matemática de forma significativa, para o maior número de aprendizes, pode ser muito mais fácil do que a gente pensa, diante da realidade que conhecemos. O primeiro passo é confiar em uma mudança, e saber que a pesquisa acadêmica e inúmeras experiências pedagógicas comprovam que isso é não apenas possível, mas também mais divertido do que aferrar-se aos modos consagrados de ensinar.

Fonte: A REDE Educa. Como inovar no ensino de matemática? Site do projeto, 20 jun. 2016. Entrevista com Luca Rischbieter. Disponível em: <http://goo.gl/2xNfYl> Acesso em: 27 jun. 2016.