Matemática com sabor

Matemática com sabor

Turma do 2º ano do Ensino Fundamental da Escola da Vila aprende sobre unidades de medida enquanto preparam receitas simples.

Um dos maiores desafios colocados aos professores polivalentes dos Anos Iniciais do Ensino Fundamental é abordar os conteúdos curriculares de maneira significativa para as crianças. Contextualizar o conhecimento de matemática no cotidiano dos alunos era uma das preocupações da professora Andréa Dias Tambelli, quando, em 2014, propôs o projeto “O trabalho com medidas” para um das turmas do 2º do ensino Fundamental da Escola da Vila, em São Paulo.

Com receitas simples, Andréa ajudou as crianças a pensarem sobre os números de modo prático, semelhante ao que eles viam os familiares fazerem no dia-a-dia. Mas o objetivo não era, segundo a educadora, que as crianças se tornassem chefes de cozinha. “Meu interesse não era na culinária e sim que eles pudessem lidar com números”, lembra.

A professora conquistou duas vitórias com o bom trabalho: a premiação como uma Educadora Nota 10, prêmio da Fundação Victor Civita, e um legado para a Escola da Vila, que transformou o projeto em atividade permanente de todas as turmas do 2º do Ensino Fundamental.

Receitas simples
Decidida a abordar o tema das medidas matemáticas de maneira diferente, Andréa escolheu a culinária como instrumento. Para isso, ela solicitou a ajuda de uma nutricionista e explica: “Eu pedi receitas rápidas e diferentes entre si”.

Ela elegeu as seguintes receitas: bolinha de abacate, biscoito de laranja, leite com achocolatado e bolo de caneca. A educadora selecionou receitas diversas para garantir que cada grupo vivenciasse uma experiência única e pudesse dividi-la com a sala em um momento de socialização posterior. Desse modo, ela tinha em mãos receitas que trabalhavam apenas com xícaras e outras somente com colheres, por exemplo.

Cada um no seu canto
Outra parte fundamental para a eficiência do projeto foi o planejamento prévio da estruturação da sala de aula. Embora as receitas fossem simples, era necessário que a educadora acompanhasse os alunos durante a tarefa, o que Andréa solucionou dividindo a classe em cantos – espaços com tarefas distintas relacionadas à disciplina.

Ela organizou os 27 alunos em cinco cantos. Essa estruturação foi importante porque não deixou nenhum grupo ocioso e permitiu que a professora acompanhasse o processo das receitas. “Todos os cantos trabalhavam matemática de alguma forma. Quando não estavam nas receitas, as crianças faziam atividades que já conheciam, como pega-varetas, por exemplo”, explica Andréa.

Cozinhando para medir
Arquitetado o projeto, o passo seguinte foi apresentá-lo à turma e diagnosticar a familiaridade dos estudantes com a temática. “Questionei se eles já tinham visto alguém preparar receitas em casa, que tipos de instrumentos eram usados para medir e propus que eles escolhessem a receita que mais gostassem”, explica a professora.

Animados, os alunos rapidamente se envolveram nas atividades. A cada semana, um grupo de alunos resolvia situações-problemas que exigiam habilidades matemáticas, como estimar quantidades, distinguir a diferença entre milímetros e gramas, usar instrumentos de medida ou pensar os pesos diferentes de ingredientes distintos.

Entre copos medidores, xícaras, colheres e lista de ingredientes, as crianças também exercitaram o conhecimento de português. Andréa tomou o cuidado de escrever as receitas em letra bastão (ou letra de mão), adequado à faixa etária.

Conforme as atividades avançavam, os desafios eram solucionados em discussões em grupo. “Trabalhar em grupo potencializou a aprendizagem. Eles discutiram muito sobre problemas práticos como, por exemplo, como fazer para que apenas duas crianças colocassem quatro xícaras de farinha”, explica a professora.

Após o preparo das receitas de todos os alunos, a turma realizou um momento de socialização coletiva do conhecimento, onde foi possível dividir com os demais as experiências com instrumentos medidores diferentes.

Para finalizar essa primeira parte do projeto, professora e turma prepararam uma grande receita. Nessa atividade, os estudantes tiveram mais uma oportunidade de recapitular, discutir e fixar o aprendizado.

Dividindo e dobrando
Na última parte do projeto, Andréa propôs às crianças que convidassem duas outras turmas para saborear uma das receitas. Mas, para realizar a tarefa, os alunos teriam que diminuir a receita pela metade para uma turma e dobrá-la para a outra. E ai estava o desafio: pensar proporcionalidade e fração não é conteúdo do currículo do 2° ano do Ensino Fundamental.

Andréa conta como fez para tornar a tarefa viável. “Para algumas crianças, pensar na metade seria muito difícil – um conteúdo mais complicado -, mas eu sabia que elas seriam capazes de pensar no dobro”, explica. Com o objetivo de enriquecer a tarefa, a educadora dividiu a turma em quatro grupos: dois para lidar com o dobro e dois para lidar com a metade. “Todo mundo tinha um desafio grande, mas possível”, conclui.

Para Ivonildes Milan, pedagoga, professora de matemática e integrante da banca selecionadora do Prêmio Educador Nota 10, a ousadia de Andréa foi construtiva. “Ela se propôs a fazer um trabalho onde as crianças poderiam seguir em frente – não ficou presa a uma estrutura tradicional”. E acrescenta: “Ao deixar os meninos irem além daquilo que eles davam conta, ela deixou as crianças se arriscarem e também se arriscou como professora”.

A aposta deu certo. Tão certo que a escola decidiu transformar o projeto em uma atividade fixa para todos os 2° anos da Escola da Vila. Andréa garante que a experiência não precisa ser exclusividade. “É um projeto barato, as receitas são muitos simples. É possível trabalhar em qualquer escola,”, ressalta.

Foco na matemática
Ivonildes mapeia onde a educadora acertou. “O importante desse trabalho não foram as crianças mexerem na massa, mas sim as decisões que elas tinham que tomar”. Autora de diversos livros didáticos de matemática, a especialista critica a fetichização dos trabalhos práticos na disciplina sem objetivo pedagógico. “É importante realizá-los com um propósito”, esclarece.

Para ela, o projeto foi bem-sucedido na medida em que o texto instrucional, típico de uma receita, exige que a criança tome decisões para preparar o alimento, fazendo com que a relação das crianças com a medida matemática surgisse de forma natural. Andréa atesta a análise da pedagoga. “Fazer a receita era pensar os números em outro contexto. Eles tinham que lidar com situações de medir, de comparar, de calcular”, afirma.

Polivalente
Polivalência significa versatilidade, capacidade de exercer várias tarefas. Nenhuma função poderia definir melhor a professora Andréa. Aos 43 anos, ela passou quase toda a vida na sala de aula, ora como estudante, ora como educadora. Natural de São Paulo, Andréa conta que sempre gostou de ensinar – no entanto, o que a levou para a área de Educação foi um teste vocacional.

“Sai da escola muito jovem e estava confusa, como qualquer jovem de qualquer época”, relembra. Como o teste indicou Pedagogia e Artes como suas carreiras de interesse, a jovem decidiu juntar os dois mundos e, formando-se em Artes Plásticas, tornou-se professora de artes.

Mas ela queria mais. Mais envolvimento com a Educação, mais tempo com os alunos. Para isso, formou-se em pedagogia e passou a exercer a função de professora polivalente. Atuando há 20 anos como educadora, Andréa diz não se arrepender, pois apesar da desvalorização da profissão, há respiros como o prêmio Educador Nota 10.

Ela conta que ser agraciada com o prêmio foi um grato reconhecimento. “É muito gratificante e não só pessoalmente, mas para a classe e para meus colegas de trabalho, que pensam: ‘puxa que legal: tem alguém que olha pra isso’”, afirma.

Fonte: Todos pela Educação – http://goo.gl/IG5Y7g